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FRANCISCA MANUEL

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Retrato de Francisca Manuel por Ana Jotta

Retrato de Francisca Manuel por Ana Jotta
Está tudo dito no fac-simile que apresentamos aqui em cima, Ana Jotta aceitou o desafio de retratar, desta maneira peculiar, Francisca Manuel, uma muito jovem autora que desde Fevereiro de 2008 passa os dias a filmar Jotta no seu atelier, em casa e por onde ande. Resta ficarmos à espera com ansiedade do filme que daí surgirá.

Aos 18 anos Francisca Manuel saiu de casa de seus pais. Tinha passado a sua infância em Loures, vivia numa casa com jardim cheia de animais domésticos. Três cães e três gatos, era a média. Com uma máquina fotográfica registava-os exaustivamente. Nada de estranho. Mas não eram animais “queridos” aninhados no sofá, não eram bem fotografias para um comum álbum de família. Mais tarde tornaram-se imagens da sua gata a recuperar de uma mordidela violenta dada por uma cadela vizinha. Tinha um buraco no pescoço e uma daquelas palas à volta da cabeça para que não coçasse a ferida. Depois, no liceu, era a amiga que tinha acabado de fazer uma operação ao nariz e estava negra. Numa viagem à Irlanda fotografou um rapaz muito novo que tinha também uma negra no olho. Fotografou depois mais animais, desta vez aqueles que todos nós encontramos pela rua, mortos. Pombos e ratazanas. Mas nenhuma das imagens que criou nessa altura têm algum lado “gore” profundo, de alguém que olha com malícia para um animal morto atirado para a sarjeta – as suas fotografias não eram gratuitas, eram as de uma miúda ainda com a inocência intacta, sedenta de produzir imagens, e que partilhava alguma coisa com o “sujeito” fotografado. Foi nessa altura que encontrou colegas que percebiam as suas obsessões, era com eles que também fotografava – curiosamente o seu núcleo duro eram André Romão, que venceu há pouco tempo o Prémio EDP Jovens Artistas e Mariana Silva, que escolheu Berlim, como muitos artistas, para trabalhar.
Francisca nasceu no seio de uma família de arquitectos e quando chegou a altura de escolher a faculdade, o que parecia óbvio – as Belas Artes, já que pintava e desenhava desde pequena, acabou por não acontecer. Veio para Lisboa para o Curso de Arquitectura da UAL onde no 2º ano encontrou um professor (o Arquitecto José Adrião) que trazia para as aulas muitas referências de outras artes, livros e filmes. Depois de ter experimentado o suporte vídeo (por causa de levantamentos de locais nas aulas de arquitectura), depois das rotinas que adquiriu em Lisboa – as constantes idas ao cinema e a exposições (como as de Tony Oursler ou Gary Hill no CCB), e também depois de ter devorado a retrospectiva de Chantal Akerman na Cinemateca, tornou-se insuportável continuar a acreditar no que tanto lhe diziam – “artista podes ser sempre”. Tornou-se urgente começar logo – “sempre” é uma noção demasiado abstracta para alguém tão ávido e tão novo. Foi para o Curso de Cinema e Imagem em Movimento do Arco, um curso recente, também ainda em formação, mas onde melhor poderia ter a liberdade e o acompanhamento no crescimento da prática que procurava. Passou os últimos três anos a fazer vídeos que, para quem olha de fora, reflectem a maneira de se posicionar, a sua atitude perante uma câmara – da relação que escolhe ter com o que escolhe abordar, e esse parece ser o ponto importante. Em “Fátima” (2006), a empregada que limpa a sua casa, com quem tem uma relação distante, foi o sujeito de um vídeo exaustivo, não a própria, mas as suas acções mecânicas, à partida sem nada de especial – limpar a cozinha, o quarto, a casa de banho. Pensou a sua própria escola, na peça “S/Título (Arco)” (2007), a partir da filmagem, em plano fixo, das janelas e portas do edifício de ensino, vídeo exposto no ano passado no espaço Arte Contempo, em Lisboa.
Paralelamente à escola tem feito muitos trabalhos e encomendas para outros criadores (José Adrião, Francisco Camacho, Miguel Bonneville, Catarina Alves Costa, entre outros) mas o que tem agora em mãos é algo que parece vir a ser determinante no seu processo de construção – será aqui que Francisca vai perceber de que maneira se vai posicionar numa actividade que pretende reflectir as fronteiras entre o uso do vídeo nas artes plásticas e o documentário/ficção. Está neste momento em filmagens do que será um trabalho sobre a artista plástica Ana Jotta, alguém que já conhecia mas que queria perceber, como pessoa e criadora. A sua atitude perante um seu novo sujeito pode ser de partilha e envolvimento. Não existe aqui uma documentarista em definição “normal”, nem uma artista plástica que, com o suporte vídeo, apenas fabrica ficções a partir do real. Nos seus planos obsessivamente fixos, sente-se que alguma coisa vai acontecer, mesmo que pareça ser algo, aparentemente, digno de pouca nota. É aí que reside, numa acção partilhada em silêncio (ou não), o que é mais importante. Esta é uma pista para o futuro, já falei de ontem e de hoje. Agora deixo a música que ouve.

YOU ARE THE MUSIC
(10 ou + favoritos de sempre)

“A Bugged in Selection”, Erol Alkan/ “Late Night Tales”, Air/ “Funeral”, Arcade Fire/ “Fold your hands child, you walk like a peasant”, Belle & Sebastian/ “Tender”, Blur/ N.E.R.D./ Cat Power/ “Little 15”, Depeche Mode/ DJ Shadow/ “Donnie Darko” BSO/ “Love Box”, Groove Armada/ Hot Chip/ Kanye West/ Michael Mayer/ New Order/ “Time of the Season”, The Zombies/ Phoenix/ Pulp/ “Kid A”, Radiohead/ “Suede”, Suede/ “Loops from the Bergerie”, Swayzak/ The Smiths

MUSIC IS MY RADAR
(10 ou + músicas/álbuns/autores/géneros para trabalhar)

“Back to Mine”, Neil Tennant/ “Not for Piano”, Francesco Tristano/ “Destroy Rock&Roll”, Mylo/ “Selected Ambient Works 85/92”, Aphex Twin/ “Give Me Every Little Thing”, The Juan Maclean/ “The Light at the End of the Tunnel is a Train”, Whitey/ “Movements”, Booka Shade/ “Castlemadeofsand vol.2” Alexkid/ “The Royal Tenenbaums”, BSO/ “Lost in Translation”, BSO

HEY MUSIC LOVER
(10 ou + músicas/bandas que andes a ouvir hoje)

Les Inrockuptibles presentent OBJECTIF 2008/ “This is Normal”, Gusgus/ “23”, Blonde Redhead/ “Jukebox”, Cat Power/ “Back to Black”, Amy Winehouse/ “Thug Ass B*tch”, Ghetto Inmates (“Bully”, BSO)/ Alex Gopher/ Jeff Buckley/ Benjamin Biolet/ “Marie Antoinette”, BSO/ U.N.K.L.E./ “American Gangster”, Jay-Z/ “Darklands”, The Jesus and Mary Chain

HIT MUSIC
(10 ou + guilty pleasures)

“A Bad Dream”, Keane/ “Strong”, Robbie Williams/ “She”, Elvis Costello/ “Careless Whisper”, George Michael/ “Elevador da Glória”, Rádio Macau/ “É Demais”, Doce/ “Just Want You to Know”, Backstreetboys/ “Jamin’”, Bob Marley/ “Lovin’ you”, Minnie Riperton

LOST IN MUSIC
(10 que vais levar de certeza contigo para o futuro)

“Screamadelica”, Primal Scream/ “Rabbit in Your Headlight”, Radiohead, U.N.K.L.E. & DJ Shadow/ “Spin Spin Sugar”, Sneaker Pimps/ “Frontin” Pharrell ft. Jay-z/ “Connected” Stereo MC’s/ “The Virgin Suicides”, BSO/ Underworld/ Phoenix/ “Tender”, Blur/ “Beggin’” Frankie Valli & The Four Seasons

EXIT MUSIC (for a film)
Uma música que sirva de banda sonora a estas páginas

“The Air That I Breathe”, The Hollies

“Fátima” (2006)

“S/T�tulo (Arco)” 2007

Projecto Ana Jotta (em filmagens)

Projecto Ana Jotta (em filmagens)

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Written by msdove

April 3, 2008 at 2:39 am

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