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VASCO BARATA

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Retrato de Vasco Barata por Ana Anacleto

Retrato de Vasco Barata por Ana Anacleto
Nasceu em 1975. Expõe regularmente desde 1999. Utiliza o desenho, o vídeo, a instalação e a fotografia para investigar as suas «Everythingscapes», título de tantos dos seus trabalhos que tratam noções de paisagem – sejam urbanas, interiores ou dentro da tradição da história da arte, na mesma medida, com a mesma coerência.

Existe uma geração, que nasceu a ver televisão a preto e branco e a brincar com os singles nos “pick-ups” dos pais, presenciou a passagem para a RTP a cores, e ao vislumbre das lojas de discos a passarem da maioria vinil para a maioria CD. Foi a geração que apanhou uma grande viragem, ainda suficientemente nova para se integrar na perfeição ao MS-DOS, às disquetes grandes (aquelas de 8 polegadas), às disquetes pequenas, e depois ao Windows, aos CDs, ou agora aos macs e aos leopards e aos “itudo”. Foi a geração que viu telemóveis com baterias que pesavam kilos, passou pelos pagers da coca-cola e é a geração para quem hoje desligar o telemóvel temporariamente é um statement pessoal e social. Digo “uma” geração, há falta de melhor palavra, por que se calhar são várias, mas em definição alargada esta geração de que falo nasceu obviamente, mais ou menos, durante a segunda metade do século XX.
Vasco Barata tinha um verdadeiro fetiche pela mira técnica da RTP. Fixava-a na esperança que algo acontecesse. Devorou obsessivamente todas as séries, filmes, música que lhe passava pela frente com interesse também por todos os gadjets associados. Não tem qualquer pudor em dizer que foi um puto protegido em pequeno e que a sua infância lisboeta foi passada a brincar na rua com outros miúdos mas também com a avó na varanda, que lhe ensinava as cores com a ajuda dos carros que passavam. E desenhava por todo o lado, com giz nos muros, e em cada pedaço de papel que apanhava, listas telefónicas, livros escolares, papel de máquina comprado “à folha” com a semanada. A obsessão com o acto de desenhar acompanhava o apetite incontornável pela imagem em movimento ou, por exemplo, pela obsessão por uma fotografia impressa num livro dos pais. Um soldado na frente russa com duas moedas nos olhos. Vasco não sabia ainda ler a legenda e só mais tarde – porque procurou essa imagem de forma recorrente – percebeu o seu verdadeiro significado, o que faziam aquelas moedas nos olhos do soldado. A realidade associada àquela fotografia, para Vasco, tirou-lhe o interesse todo. Era só uma única realidade. Naquele caso, a morte.
A paixão pela imagem não amansou, não se tornou apenas um hobby ou interesse de fim-de-semana. Corajoso, hoje considera-se um “produtor inocente de imagens” com toda a responsabilidade ética que isso implica. Passou pela ESAD, nas Caldas da Rainha, fez o curso de Pintura das Belas-Artes em Lisboa, uma pós-graduação em Desenho também na FBAUL, e mais recentemente o Curso de Artes Visuais do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística. Hoje os seus trabalhos podem passar pela fotografia ou pelo desenho com a mesma facilidade. No ano passado expôs na Galeria Carlos Carvalho, a série de desenhos «Wallpaper». Cada uma das peças é composta por vários desenhos de elementos retirados da revista Wallpaper. Como uma planta de uma casa ou um storyboard de um filme, Vasco escolhe e reinterpreta no desenho, objectos, mobiliário, peças de um suposto “ideal modernista”. E aquele aspirador no desenho não é um aspirador qualquer, é “aquele Hoover”. Encontramos essa mesma precisão e reflexão num outro trabalho “on going”, começado em 2005 – «The Film Series», são fotografias com frases, legendas. A linguagem associada à imagem dirige o espectador para um sem fim de interpretações – uns, percebemos, que são como se fossem imagens de “location scoutings” de filmes fictícios (?), outros são pedaços de diálogo – o resto imaginamos nós como putos à frente de uma televisão, como Vasco fazia com a imagem do soldado antes de saber ler. As fotografias de «The Film Series» são tiradas pelo próprio artista, situações ou vistas que num determinado momento lhe parecem cinematográficas. Tenta perceber porquê, tenta descobrir porque fotografou aquilo – “será que foi por causa de um episódio do «Fugitivo»? A cena do maneta no parque de diversões, é isso!” – daí à abertura para novos significados e reflexões é um ápice. Vasco Barata é o que podemos chamar um verdadeiro “geek”, que em suma, nos dias de hoje, significa uma pessoa com muito boa memória para as coisas de que gosta, que lhe interessam, e são muitas. E ele ainda por cima é um “geek” com “good looks” que pratica Muay Thai (segundo ele, “não é um cocktail é boxe tailandês”). Mas o importante aqui não é aquilo de que gostamos mas aquilo que fazemos com aquilo de que gostamos. No dia 12 de Janeiro inaugura uma exposição na Reflexus Arte Contemporânea, no Porto. Esta é uma pista para o futuro, já falei de ontem e de hoje. Agora deixo a música que ouve.

YOU ARE THE MUSIC
(10 ou + favoritos de sempre)

no special order:
«Life on Mars?», David Bowie/ «Blood On Our Hands (Justice Remix)», Death From Above 1979/ «Guilt», Marianne Faithfull/ «Slave To the Rhythm», Grace Jones/ «Disco Infiltrator», LCD Soundsystem/ «Love Will Tear Us Apart», Joy Division/ «TNT», Tortoise/ «Crosstown Traffic», Jimi Hendrix/ «Spiral», John Coltrane/ «Kiko and the Lavender Moon», Los Lobos

MUSIC IS MY RADAR
(10 ou + músicas/álbuns/autores/géneros para trabalhar)

no special order:
Tortoise/ «Daft Club», remixes Daft Punk/ «Cashier Scape Route», compilação City Centre/ Kreidler/ John Coltrane/ Chet Baker/ M.I.A/ Matmos/ «Musical Wonderland», compilação/ «The Music from Drawing/ Restraint 9», Bjork/ Silent Poets

HEY MUSIC LOVER
(10 ou + músicas/bandas que andes a ouvir hoje)

no special order:
Liars/ The Blakes/ Editors/ The Wombats/ The Violets/ She Wants Revenge/ Blonde Readhead/ Gravehurst/ Queens of the Stone Age/ Mount Eerie/ M.I.A/ Burial/ Private/ Micro Audio Waves/ Kelis/ The National/ The Kills/ «Bluesman sing Spirituals», compilação/ Neko Case

HIT MUSIC
(10 ou + guilty pleasures)

no special order (just shame):
«Descontroladas», Deise Tigrona/ «Dallas Theme song»/ «The Littlest Hobo Theme song (1979-1983)»/ «I Was Made For Lovin’ You», Kiss/ «The Muppet Show Theme Song»/ «21st Century Boy», Sigue Sigue Sputnik/ «Unbelievable», EMF/ «Would?», Alice in Chains/ «The book mamma gave me about sex», Kay Martin/ «Theme for a trucker», Whiskeytown

LOST IN MUSIC
(10 que vais levar de certeza contigo para o futuro)

no special order:
«Noir Desir», Vive la Fête/ «You can have it all», Yo La Tengo/ «Karma Police», Radiohead/ «Where did you sleep last night», Leadbelly/ «Neon Bible», Arcade Fire/ «Heroes», David Bowie/ «Glory Box», Portishead/ «Rumble Ring», No Doctors/ «Milkshake», Kelis/ «Smells Like Teen Spirit», Nirvana

EXIT MUSIC (for a film)
Escolhe uma música que sirva de banda sonora a estas páginas

«Racing Like a Pro», The National

Written by msdove

February 23, 2008 at 6:26 pm

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